quarta-feira, 6 de março de 2013

A quinta de Marina

 
Era uma quinta-feira, não como as outras. Marina já estava a seis meses trabalhando no interior, cidadezinha calma, trabalho tranquilo, aquela chata amiga que sempre abusava da calma e boa vontade dela. Agora já tinha umas outras, do outro setor, mas com quem conseguia conversar tranquilamente. Depois do último trauma, havia evitado conhecer, falar com caras que se parecessem com seu ex. Às vezes achava que não iria mais encontrar alguém com quem quisesse dividir uma vida, com quem quisesse ficar abraçada por horas, sem dizer nada. Com quem quisesse estar nas últimas horas sem pensar em mais nada. E até de sentir isso ela sentia falta. Mas aquele convite poderia lhe acender um pouco de esperança, embora ela não encarasse assim. Ele era só o motorista, e o que os pais dela pensariam? Ela, formada, num emprego medíocre de concurso público, numa cidadezinha medíocre, poderia ao menos namorar um defensor dalí, um advogado que estivesse por ali... ou até alguém no mesmo cargo, com o mesmo grau de instrução. Mas foi de um motorista que ela chamou atenção. Não sejamos injustos, não foi só do motorista, mas não conta o administrativo do outro setor porque tinha algo que lembrava o ex, ela não sabe se era a pose, algum traço, o corte de cabelo, talvez. Não sabia definir o que era, talvez fosse o jeito de chegar, o que com certeza diminuiu as chances com Marina. O motorista era sorridente, um pouco tímido, mas alegre, não tão bonito, não era alguém que chamasse atenção. Um pouco gentil e calado, ao mesmo tempo. Ficava admirando Marina de longe, ela fingia não perceber, assim se sentia mais a vontade pra engatar uma conversa com ele sempre que a levava para casa. Marina nunca foi de tomar iniciativa, mas quase que de forma impulsiva, ela estava conquistando ele. Um sorriso, uma atenção especial. Não se pode definir se estava conquistando, ou se estava encantada. E naquela onda de atenções e sorrisos bobos, ele a convidara para sair. - Já foi no "Diplomata"? . - Ainda não, saio pouco aqui, já comi no Careca, nada fino (risos). Sempre saio com as meninas do protocolo. - Pois vamos hoje comer alguma coisa depois do expediente, ou se você preferir um pouco mais tarde... - É melhor, assim vou em casa primeiro. E o que havia sido aquilo? Era o que Marina se perguntava, era um “encontro”? Depois do expediente, talvez não. Mas e a possibilidade de ir mais tarde?  Ela nunca tinha tido um “encontro” assim, alguém que ainda não era nada... Ela não sabia entender o que era aquilo, ele poderia estar sozinho, precisando de uma companhia, ele queria sair pra jantar, não tinha ninguém. Ou, ele estava mesmo afim. Mas afim como? Afim de fazer dela sobremesa e depois sumir? Não tinha como sumir. Ou ele queria uma diversão, amiga de trabalho, quem sabe? Já tinha aceitado, não iria bancar a louca. O peito se encheu de coragem e determinação, até ter que escolher algo pra vestir. Encontrou um vestido, marrom com estampas em cobre, era um belo vestido. Nada tão sofisticado, uma maquiagem simples... Ela não era tão bela, com rosto que estampava acnes, ficava bem apresentável maquiada. As horas passaram muito rapidamente, a ponto de não ter se dado conta do desenrolar das conversas, da escolha do prato. Era como se estivesse bêbada, mas não tombava. Era como se ela tivesse vivendo tudo aquilo sem aproveitar nada do que tivesse acontecendo em cada momento. Era como se concentrasse apenas no depois. E até que, finalmente, chega o depois. A hora de ir pra casa. Ele abre a porta do carro para Marina, já acostumada com a gentileza, devolve naturalmente um sorriso. Mas aquele sorriso era ofuscante para ele. Mordeu um sorriso para ela, meio sem jeito diante dos próprios pensamentos. Ainda falaram do prato durante o caminho, falaram do casal na mesa ao lado, mas o silêncio predominava e era agoniante, constrangedor. Ao chegar, ela logo se arrumava pra descer do carro, sem que ele tivesse desligado. E aquele investimento todo pra que pra fugir agora assim? Ela não sabia o que fazer, aquela altura tinha medo do que pudesse parecer, normal para uma garota insegura. Mas ele já se sentia seguro o suficiente para segurar no seu braço e tascar aquele beijo, que pra ela fora um tanto precipitado, a ponto de ela não conseguir retribuir da mesma forma. Deu uma aliviada, e mais duas bitoquinhas. - Preciso ir, amanha ainda é sexta, tem trabalho, você também precisa. Eh... obrigada, adorei. Disse ela, meio sem jeito, meio sem querer dizer aquilo. - Até amanha?. - Sim, até amanha. Ela baixou a cabeça sorrindo. Ele ainda a puxou pela bochecha, dando um último beijo meio desajeitado, ela já saindo. Dormir aquela noite? Meio difícil... Por que não deixou se prolongar um pouco mais? Deveria ter dado mais uma bitoca antes de sair. Mas foi de bom tamanho dizer "até amanha", aquilo tinha o significado além do “até mais” habitual.  
 

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