quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

"Isso também passa"

Lá estava ela de novo, estudando vários textos e escutando qualquer coisa, na tentativa de esquecer o dia anterior. Por mais que tentasse, o perfume e a cor ainda estavam presentes e ainda estariam onde quer que ela fosse, o que quer que fizesse pra tentar esquecer. Jamais deixaria de lembrar até que tudo aquilo passasse de vez.

Não foi uma vez como as outras vezes, não foi uma coisa como as outras coisas, nem era só mais uma de suas crises. Dessa vez, fora diferente e a crise era intensa, tão intensa e profunda que a fazia não se dar conta disso. Nem uma lágrima, nem mesmo um grito abafado pelo travesseiro Bandido. Nada a tiraria daquele estado de nada. As atividades diárias, mais trabalhos automáticos do que qualquer coisa que a deixasse satisfeita. Nem uma dor aparente. Olhos lânguidos e sequer um sorriso amarelo, e ela nem se dava conta disso. Era preferível que ninguém ficasse, o tempo todo, pronunciando palavras de consolo ou mesmo perguntando o que havia e porque estava diferente. A faria lembrar menos vezes da própria tristeza. E quanto mais tentava se afastar para tentar esquecer, pior ficava. Solidão nunca foi remédio para se esquecer da própria dor. Mas se algum dia ela tivesse tido alguém de verdade, e se alguma vez na vida ela não tivesse se sentido só, talvez seria mais fácil entender que precisava da companhia de outras pessoas, além daquele pobre bonsai, que mesmo com todos cuidados já não se desenvolvia mais. Talvez porque a dona já não conversava tanto com ele, já não lhe sorria, ou talvez porque tinha se esquecido de trocá-lo de espaço. Mas ele também já estava triste; a tristeza, assim como a alegria, é contagiosa. A vida estava automatizada, quando ela percebeu que já não agüentava acordar todos os dias, passar café e tomar com biscoitos, colocar uma roupa escura, sem que se preocupasse com combinações, almoçar na rua, e ler textos ao final do dia até que dormisse. Talvez tudo estivesse passando, e estava. Ela mesma se deu conta disso, e nada de radical pra mudar a vida, fez. Num sábado a tarde resolveu ir à livraria, escolheu um livro de seu autor predileto, José Saramago. Ao pagar, sorriu agradecendo o caixa. Depois daquele sorriso, ela ficou rindo, e rindo repetidas vezes. Deixou a livraria a gargalhadas, lembrando-se de o quanto era bom sorrir.





Um comentário:

  1. Eu sei como é... ;D
    Vou passar a ler o Saramago também, preciso mesmo comprar livros!

    Beijão, amiga

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